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A Libertação do Release:

para uma introdução não-propagandísica ao El Efecto


Por Pedro Lima

Release: (v) libertar, livrar, liberar; soltar, largar, desprender, desamarrar...; (s) libertação, livramento, soltura, alívio, socorro, salvação, liberação...

Nosso uso generalizado de termos em inglês, além de depreciar uma língua tão mais rica, encerra também uma série de confusões semânticas. Contudo, não parece ter havido mal-entendido neste caso, uma vez que o termo é usado também pelos anglófanos com o mesmo sentido: tanto lá quanto aqui, release é o nome dado a um breve texto que objetiva revelar as qualidades insuperáveis de uma dada mercadoria, lançando-a assim no mercado como a mais nova sensação a ser experimentada (comprada). Descrição sempre enaltecedora do objeto, esta forma propagandística não pode relativizar sua exaltação sob pena de derrota na guerra do mercado, assim como um feirante não pode apontar os defeitos da sua couve.

Pura lógica de mercado, percebe-se. Ora, por que então utilizar um nome tão carregado de significado emancipatório para designar o confinamento de um bem aos parâmetros estreitos da mercantilização? A resposta mais óbvia parece a mais interessante: porque o mercado não é entendido como lugar de encarceramento a ser superado, mas sim como reino da liberdade. Assim, lançar um produto no mercado é o gesto último da libertação, diz-nos a ideologia dominante.

Com isso em vista ─ e todo este preâmbulo visava à questão que segue ─, seria ainda congruente traçar umrelease do El Efecto? Construir um artigo de propaganda sublinhando as virtudes desta ou daquela obra de arte? Não. Em se tratando de artistas que não partilham da crença de que o mercado tenha subsumido irreparavelmente todas as formas de afetos e apetites, trata-se antes de esboçar um anti-release, rejeitando a forma de argumentação mais conveniente ao mercado: a retórica mentirosa. O El Efecto não dispõe suas obras de arte como produtos à comercialização, tampouco subscreve ao fatalismo dos pregadores do fim da arte. Sendo assim, como se trata de arte e não de mercadoria, este texto se propõe a tentar situar algumas das inquietações que motivam suas realizações artísticas ─ utilizando não o estilo preto-no-branco que marca as peças propagandísticas de persuasão, mas sim explorando a zona acinzentada dos devaneios, questionamentos e esperanças que subjazem à música do El Efecto.      

Primeira conseqüência prática deste método: qualquer tentativa de delimitar um estilo que emolduraria a estética da banda torna-se estéril, uma vez que a lógica das prateleiras diferenciadas por gênero não condiz com um fazer artístico que se quer libertar das artificialidades tão naturalizadas da seleção mercadológica. Não obstante, há aqui um necessário hiato entre intenção e prática: querer fugir do reducionismo dessas classificações não leva imediatamente a uma transcendência dos estilos cujas fronteiras já enraizamos na nossa apreensão subjetiva. Nesse sentido, os gêneros estão lá quando ouvimos ao El Efecto; porém de uma forma tal que torna arbitrária qualquer tentativa de rotulação unidimensional.

Entretanto, determinado o seu ecletismo, ainda nos situamos de forma precária perante a música do El Efecto. Isto porque talvez o principal valor que norteia a submissão pós-moderna da arte ao mercado esteja exatamente relacionado a uma busca pela mistura, pela bricolagem certa que possa agradar a gregos e troianos. Se afirmamos que o El Efecto quer se afastar dessa moldura, é preciso então caracterizar a particularidade de seu hibridismo musical, distinguindo-o daquilo que seria um ecletismo vulgar.

Primeira e substantiva diferença: a busca pela organicidade na mistura. Enquanto a música radiofônica atual ora se enquadra dogmaticamente nos quesitos do estilo escolhido, ora se mostra um amontoado grosseiro dos elementos mais marcantes de dois ou mais gêneros, o El Efecto, por sua vez, visa a escapar dessas duas tendências ao adotar uma postura de heterodoxia radical no processo de composição. Isto é: a banda coloca pra si o imperativo de uma auto-vigilância cerrada sobre a liberdade de criação. Não se parte de um rótulo a prioripara depois validar ou não as composições conforme o grau de seu enquadramento. São as criações que determinam o escopo da abrangência do que seria o estilo do El Efecto. Nesse sentido, soa paradoxal falarmos em estilo, quando o que se tem é uma abertura que se quer infinita.

Por outro lado, alguns elementos são claramente perceptíveis na sua remissão a influências óbvias e os instrumentos que compõem a espinha dorsal sonora da banda indicam uma pertinente alocação da banda sob a égide de uma estética rock n' roll. Neste ponto em que a iconoclastia se encontra com a repetição, é preciso notar que não se trata de uma arte estanque criada por sujeitos a-históricos. Com uma criação musical fortemente marcada pelo ambiente MTV dos anos 90, seria impossível que, mesmo a contragosto, sua música não se deixasse tocar pelo mundo musical que os cercava (e ainda cerca). Porém, ao se colocar um horizonte de transvaloração das formas musicais hegemônicas e ao tomar consciência do paradoxal caminho que esta busca inevitavelmente exige, o El Efecto pode talvez ser melhor compreendido como um conjunto de artistas natentativa da ruptura. Seria cômodo para, nos moldes publicitários, afirmar que "o El Efecto rompe com as tradicionais divisões estilísticas através de um som único e original", contudo, isto não é um release.

A tentativa de fuga, pode-se distingui-la de forma mais imediata na utilização de instrumentos não tão familiares ao padrão-rock, como o cavaquinho e o trompete. Mais relevante, entretanto, parece ser, por um lado, a preocupação com um maior apuro harmônico, e por outro, a temática das letras. Frente à aridez harmônica predominante no repertório radiofônico, a densidade das harmonias e a imprevisibilidade melódica de algumas canções revelam, ao menos, um saudável inconformismo frente ao óbvio.

Quanto às letras, a sensação de desconforto com o redor evidencia-se quase que a cada verso. Todas as intenções estéticas angustiadas aparecem literarizadas, ora numa tragédia tangueira, ora no renovado ludismo do ataque à vida computadorizada, ora na ingenuidade romântica de um apelo à pureza perdida... Em duas palavras, se fosse possível reduzir satisfatoriamente a multiplicidade de temas, trata-se de angústia e crítica.

Como conferir a este conteúdo desejado uma forma coerente? Como fugir de uma apropriação indevida de sua mensagem, nesses tempos em que o palco favorito das bandas de rock é uma propaganda de refrigerante? Como expandir suas possibilidades artísticas evitando uma espetacularização esterilizante que cada vez mais inunda nossa socialização e até mesmo nossos sentidos?

É no meio destas e de outras questões que o El Efecto parece se situar, sendo a sua música um reflexo de uma inquietude que fala por si. Não caberia, pois, pretender que esse texto funcionasse como uma legenda descritiva daquilo que só se experimenta no contato com a obra de arte. E, certamente, não há como reduzir o potencial infinito de significados que a música carrega consigo a algumas palavras num papel (ou numa tela). Só nos resta ouvir!

 
 
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