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El Efecto: Contradição em movimento 
Por Pedro Lima

O novo disco do El Efecto, A cidade das almas adormecidas, pode ser lido como um símbolo enigmático da contradição. Contradição enquanto fundamento de um mundo dilacerado pela não-resolvida antinomia entre a necessidade e a liberdade; contradição de um dos países mais desiguais deste mundo por si mesmo contraditório; contradição de uma das cidades em que mais claramente se manifesta a antinomia – em que a necessidade está sempre encarando sem dissimulação a necessariamente frágil e falsa liberdade. A música do El Efecto não poderia, evidentemente, refletir outra coisa; manifesta-se, então, como um belo e complexo hieróglifo desta irresolução que transborda no meio em que nasce.

Desde o Efecto, cujo significado no espanhol se divide entre os antagônicos acaso e efeito, passando pelo não menos ambivalente título do disco novo, trata-se de uma oposição que move a música em sua busca desesperada pelo apaziguamento de uma solução que não se conhece – no máximo, pode-se senti-la, por entre as melodias, ora no sussurro, ora no grito. Pois como se pode tentar juntar o efeito, que remete sempre a uma causa e a uma relação de causalidade conhecida, com o acaso, sempre alheio a determinações? Efeito, essencialmente transparente em sua realização, com o sempre opaco, multifacetado e indecifrável acaso?

A cidade das almas adormecidas também oferece os seus mistérios. Uma alma adormecida: não seria este um paradoxo em termos? A alma requer movimento; existe pelo e para o movimento. Além do mais, a cidade, pensada como representação de uma comunhão entre almas decididamente despertas, não pode prescindir da lucidez. Será possível conceber uma cidade de zumbis? Será, ainda, para além da mera concepção, que vivemos, com efeito, numa tal cidade? O El Efecto nos convida (na verdade, nos obriga), precisamente, a re-conhecer esta sua versão dos fatos – e nos força a, pelo menos por um instante, parar de adormecidamente dançar conforme a música.

Neste passeio por essa cidade, imaginada e real a um só tempo, quase todos os momentos são de angústia – que, de fato, talvez seja a sensação adequada. É a beleza a serviço da angústia. Assim, deixamos de saber distinguir entre o Eles e o Nós. Até porque numa contradição que se preze, os limites entre interioridade e exterioridade são pouco discerníveis. O mundo não é feito de lados antagônicos pré-definidos: saber de que lado se está deixa de ser um exercício banal de auto-consciência. E na ciranda esquizofrênica da contradição, hierarquizar violências é das tarefas mais inglórias, assim como indigna do nome é a generosidade que se faz por obrigação.

Guiados por este nebuloso city tour, tampouco se sabe quem imita quem: se é a vida que imita a arte ou o contrário. Aqui, é imperioso perceber o papel da arte em meio ao caos: aquilo que em princípio aparece como criação e, portanto, como descolamento entre a arte e o real se torna, por uma dessas reviravoltas do mundo da contradição, um óculos sem o qual já não mais se pode enxergar aquele mesmo real, antes concebido como o Outro da obra de arte. Esta, enfim, reconecta o sujeito à realidade, por intermédio da própria invenção. A negação do real passa a se ver como mais um de seus constitutivos – e já não se passa sem ela. Nesta toada, toda a elegância inofensiva do espectador será castigada.

Em meio à profusão de miragens da imaginação que se misturam com o próprio deserto do real, as mil vozes a sussurrar confundem tudo – a bestialidade passa por cordialidade, a docilidade oculta a falta de razões para rir. Entre a guitarra distorcida e o violão enganosamente brando, vai tecendo-se a trágica história da mentira que temos sido. A

cidade é uma farsa: não existe enquanto comunidade; é apenas artifício através do qual se transforma o absurdo em natural. É apenas invólucro de tragédias – que, apesar de tudo, mantêm-se belas. E a mesma beleza que dociliza a tragédia, também a faz saltar aos olhos. O absurdo de um "querer sempre mais" que condena o homem a uma espiral eterna de sofrimento diante de objetos tornados senhores, é o absurdo de uma lágrima que parece sempre vir tarde demais. E se a própria arte não se quer tardia, é preciso conclamar ao "nunca mais!" no lugar do "sempre mais".

Se o El Efecto é uma contradição em movimento, é porque decididamente de sua música não emana a resolução. O encanto não se quebra, nem as miragens se dissipam como efeito de sua arte. Pois a própria arte não pretende ser a solução: a reconciliação que ela promove é de outro nível, entre o homem e a sua capacidade de sentir. O que se sente, como se sente ou o que se faz a partir do sentimento: não compete ao artista defini-lo. O belo carrega ainda esta última contradição: reconcilia pela metade. Não nos enganemos quanto a isso: o trágico e o belo estão, talvez infelizmente, de mãos dadas. "Quanto mais cruel castiga o massacre, mais alto toca a orquestra". Resta saber se continuaremos levando a nossa vida costumeira... Durma-se com um barulho desses!

 
 
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